quarta-feira, 8 de maio de 2013

So, live and let die.

Havia uma grande expectativa em torno daquela segunda feira. Dez dias de preparação, esquemas de segurança e trânsito montados especialmente para o evento.

da minha parte não posso dizer o mesmo. Não fiz "esquenta", não me ative a locais e horários. Não ouvi músicas, não decorei letras - muitas eu sabia de cor. Não me preparei fisicamente, e muito menos mentalmente. Mas por quê?

Há cerca de seis meses, minha vida tem passado por uma fase intensa de marasmo e questionamentos. Esse conjunto, que muitos podem avaliar como algo desejável, perturbou minha mente de uma forma tão profunda, que me levou a ser algo que eu nunca fui, algo que eu nunca quis ser.
Fui forçada a conhecer partes de mim que eu ignorava e/ou temia, fui levada próximo ao limite da minha razão. Meu corpo já não queria mais abrigar meus pensamentos. Eles, por sua vez, eram insatisfeitos com o organismo que os mantinha, mas agora se revoltava tão violentamente.

Eis que, em algum momento, alguém me disse que eu precisava de um recomeço, uma vida nova.
"Esqueça seu passado, seus traumas. Deixe para trás seus dias gastos na escola, nas bibliotecas, na faculdade. Abandone os sentimentos de remorso, arrependimento, raiva e autopunição. Deixe para trás aquela vida vermelha-e-cinza, recomece do branco, pinte um caminho mais colorido."

Mas faltava aquele impulso, aquele momento que marca "o primeiro dia do resto da minha vida".

Me arrependi de não me preparar fisicamente: haviam dores por todos os lados de mim em determinado momento.

Mas alguma coisa aconteceu naquela segunda feira. Eu sabia que algo aconteceria. Não só comigo - mas com todas as 45 mil pessoas que estavam ali ao meu lado. Com luzes, sons e significados, minha noite foi marcada por algo que nem mesmo todo o dicionário poderia explicar.

Ali, eu entendi: Não é possível se preparar para tal momento, ele simplesmente acontece. Não é preciso, pois nem todo texto precisa ser recomeçado após apagar todas as palavras.
Ali eu recomeçava.



"Blackbird singing in the dead of night,
Take these broken wings and learn to fly.
All your life,
You were only waiting for this moment to arise.

Blackbird singing in the dead of night,
Take these sunken eyes and learn to see.
All your life,
You were only waiting for the moment to be free.

Black bird fly, black bird fly
Into the light of the dark black night..."

sábado, 23 de março de 2013

Just another gaolbird.

Eu acho que estou, finalmente, enlouquecendo.


Depois de tanto lutar, alcancei. Após tantos suspiros diários, consegui.
Eram suspiros variados - de cansaço, de tristeza, de alívio, de solidão, e até aqueles sonhadores que damos quando almejamos algo.
Hoje, tenho aquele papel pelo qual batalhei tanto tempo.

Mas depois de toda a emoção, a realidade me atingiu forte e impetuosa, me derrubando no chão, me fazendo rolar e rastejar sobre o cascalho duro das minhas próprias opiniões.
E o que mais é estranho: a realidade que me atingiu foi aquela que existia dentro da minha mente, não aquela do mundo lá fora.

Que realidade é esta, que foi capaz de me arrasar tão profundamente?

De repente, eu percebi que era exatamente aquilo que eu mais abominava: Inútil.
Desde os dois anos de idade, eu sempre estive ativa. Sempre alerta, ocupada, preocupada. Estudando, estagiando, ajudando, conversando, sendo, fazendo... Nunca desligava.
Não nego: meu corpo sofreu, minha mente também. Mas passados os sustos, aparentemente criei resistência - e  percebi que era esse o futuro que eu queria pra mim.

Nunca, em todo esse tempo, eu me vi inerte. A simples menção do ócio me dava calafrios. Por fora, dizia a todos que queria um descanso. Por dentro, implorava por mais ação.


E hoje, de mãos e pés atadas, olho para trás, e a única coisa que consigo sentir é inveja do meu passado.

Quando olho ao redor, não vejo nada que esteja fora do lugar - tudo parece exercer exatamente a função para qual foi adquirido. Tudo, exceto quem olha.

O ser humano não existe para nada. Eu não fui feita para nada.
E assim como um leão enjaulado, Estou eu: frágil, monitorada, manipulável, errada.
Não existe mais projeto que me anime, pouco consegue me tirar da cama. Pessoas, lugares, sabores, cores... Tudo parece sem sentido e desnecessário, distante. e mesmo que alguma vontade ainda exista, não há força suficiente para saciá-la, e ela acaba desaparecendo, vencida pela opacidade cinza da "subexistência" em que me perdi.

E assim fica a leoa, antes brava e imponente, agora tão fácil de ferir, tão prestes a se perder no labirinto de seus traumas e paranoias.

Simplesmente não aguento mais um segundo - imaginem só o que pode acontecer em três meses.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Faster than the speed of magic.

Rápido como um relâmpago, intenso como um trovão. Devastador como um ciclone, forte como um vendaval. Mas claro e brilhante como a luz do sol nascente.

E foi assim, como um piscar de olhos. Você surgiu, quase caído do céu, e consolidou tudo aquilo que eu moldei, que eu aprendi. Você me mostrou o caminho que eu já havia mapeado, mas não tinha coragem de seguir.
E sem pedir nada, me deu tudo.

Pouco de material tive de você até agora. E, honestamente, é a última coisa que eu espero ter. Afinal de contas, nada palpável poderá representar o todo abstrato que compartilhamos em tão pouco tempo.

Tempo. Ah, esta entidade tão cruel e relativa, incógnita e definitiva...
E eu diria que, ao seu lado, nem todo o tempo do mundo seria suficiente para mim - já que três eras inteiras passariam como um curta-metragem em sua presença.
Presença essa que se faz constante e necessária, quase vital.

 "The day after you stole my heart, everythimg I touch told me it would be better shared with you."

Enquanto alguém diz isso através dos fones de ouvido, minha mente parece voar através dos momentos que dividimos e somamos. Momentos tão sublimes, que poderiam ser etéreos, se não fossem tão materiais.

E neste misto, entre o real e o astral, ficam as memórias que faço questão de guardar.

O gosto do barbecue, o vidro molhado e embaçado; o barulho do chuveiro, o suor escorrendo pelo meu pescoço; O calor das suas mãos sobre minhas costas, a textura da sua pele sob meus dedos;
O seu cheiro misturado ao meu na minha camisa, seus olhos fechados enquanto eu passo a mão pelo seu cabelo; seus suspiros enquanto eu deslizo pelo teu pescoço, seu abraço protetor; seu olhar de apreço, suas piadas infames.

Você abrindo a porta para mim, como quem me introduz a um novo caminho; você reparando minha maquiagem e meu esmalte, como quem zela por cada centímetro meu; você apertando o abraço, como se quisesse que sejamos um só; você me fazendo rir, querendo apenas meu bem estar; você me ouvindo, como quem se importa com o que eu digo.

E acima de tudo, seu sorriso, sua voz... Você.

Você, e todas as sensações que provoca. Desde o mais libidinoso dos arrepios, à mais pura admiração. Desde o vício mais perverso de te ver, ao mais incondicional dos sentimentos.


Você, que surgiu do nada, materializado do ar... Exatamente quando eu mais precisava de oxigênio novo. Você, que veio definir minha vida, marcar duas fases diferentes.

Como você mesmo gosta de dizer, minha vida começa agora.




"Quando você menos esperar, vai cair do céu. Você vai ver."


Para alguém apelidada de "Icequeen", tais palavras pareciam, na melhor das hipóteses, absurdas. "Cair do céu"... Isso merecia minha melhor gargalhada, sempre preenchida de descrença e deboche.
Principalmente se o assunto era pessoas. Pessoas não caem do céu como chuva. Pessoas são conquistadas, cativadas, mantidas, libertadas.

Pessoas não aparecem do nada para mudar sua vida.

Mas para a minha sorte, pessoas mudam de ideia... Inclusive eu.
Felizmente, pude compreender que as coincidências existem. Mas não simplesmente por existir... Sempre há um porquê.


Fly, fly to the stars.


As portas dos outros apartamentos batiam raivosas, descontando os empurrões que as rajadas de vento lhes davam. Tocava alguma música calma no home theater, que se confundia com os sons reconfortantes dos carros passando na rodovia. A casa tinha cheiro de bolo recém-assado, haviam trovões iluminando o céu cinzento.

Mas nenhum dos sentidos gritava tanto quando o tato. Tudo o que acontecia ao redor importava menos que o frio trazido pelo vento forte. Então, abriu mais a janela, subiu na cama, fechou os olhos… E voou.

Por um instante, pensou ter pulado. Esperou o choque contra o chão, os gritos de algum voyeur que estivesse se satisfazendo naquele momento. Esperou o trauma, a escuridão. Aguardou aquele sentimento que se tem quando o ser abandona sua vida, as lágrimas ao redor de seu inerte e modesto corpo. Mas nada disso veio. O chão não chegou, e muito menos o fim. Então se deu conta que seus pés ainda tocavam o colchão, e que o voo, na verdade, era só o vento que passava veloz agitando seus cabelos.

Fazia frio, pela primeira vez em muito tempo. Estranho, frio no verão.

E por alguma razão, havia ali uma lágrima, insistente, ousada. Corria mansa e destemida junto ao nariz, e parecia aquecer o corpo inteiro. Ela era um sinal de descontrole, desequilíbrio.
Havia alguma coisa errada, mas o quê? Talvez tudo estivesse errado, ela sabia.
As lágrimas foram sucessivas, encorajadas por aquela desbravadora, que parecia ter sumido há tanto tempo.
Percebeu que não tinha forças para compreendê-las. Ou melhor, não tinha forças nem para secá-las.
Deixou-se cair no colchão atrás de si, descomposta, exausta.
“Voar cansa”, pensou. “Mas não há melhor maneira de chegar ao topo, quando não se consegue usar as pernas.”

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Gyn.

Fazia um calor descomunal, como já era de costume. O sol brilhava em um céu azul, límpido e majestoso. O ar mantinha aquele cheiro de cidade que ela aprendera a amar. O ônibus atrasara os rotineiros 15 minutos, e percorreu o mesmo caminho de sempre.

Todas as coisas estavam perfeitamente normais...
Contudo, algo estava diferente.

Apesar de manter as mesmas rugas no mesmo rosto impassível, a cidade parecia olhá-la de um modo diferente. A garota podia ver, no âmago de sua coletividade, que aquele lugar tinha algo a lhe dizer.
Reparou em cada calçada, cada janela. Observou as árvores, os postes, as pessoas. Mas nada parecia ter a coragem suficiente para dizer o que estava acontecendo.
Durante todo o trajeto, sentiu seu coração apertar. Sua respiração tornou-se densa, quase um aglomerado de suspiros.

E então, sentiu saudade. Como um filho, que se despoja de seu lar para ganhar a vida... Como uma semente, que deixa os galhos reconfortantes da árvore progenitora para iniciar seu próprio ciclo.

Quando seus olhos mal podiam ver, de tão marejados, viu um carro, com a placa de outro lugar. Aquele lugar. Só então percebeu...

Sua cidade estava apenas se despedindo.

sábado, 21 de julho de 2012

Wouldn't want to change a thing.

Aeroportos são ambientes cheios de inspiração bucólica. Sempre cheio de sentimento, de dores da partida, e expectativas da volta. Seja como for, aeroportos são, à sua maneira, especiais.

E foi em um aeroporto que eu derramei as lágrimas mais doces de que já me lembro.

Enquanto a escada saia da porta do avião, eu revivi todos os minutos daqueles dez dias. Cada momento parecia ter durado uma eternidade - infinito este que passou em segundos.
E apesar de já saber que isso aconteceria, lá estava eu, em choque com a experiência. Não há como se preparar para essas coisas, você sabe. O vazio chega arrebatador e impiedoso, como uma chuva inesperada de verão.

Aos poucos, o avião se movia, ainda lentamente. Enquanto ele dava ré, eu me lembrei daquela fatídica tarde, no portão de desembarque. Seu abraço, seu perfume. Suas mãos trêmulas, seu deslocamento em um lugar desconhecido, minha insegurança, eternamente presente.

O avião se virava, e a tarde no parque se arrastava com ele. A grama cheia de espinhos, o cão voraz, as crianças, o óculos. Sua frequência cardíaca, e minha insegurança. Seu calor, que fazia sumir meus medos. O sol na minha pele, que por mais que me queimasse, não me convencia a sair do seu abraço.

As luzes piscavam, e os assistentes de pista começavam a sair de perto da aeronave já posicionada. E o barulho das outras turbinas se misturava com o silêncio sepulcral da minha sala, durante o jantar. Começava a fazer frio, como na sala do cinema aonde vimos o último da Marvel. Frio que você fez questão de afastar com aquele abraço que só você sabe como dar.

E enquanto discutíamos sobre aonde estava o Cruzeiro do Sul, aparecia na tela das partidas que seu voo estava "decolando". Pura mentira, eu pensava. Ele ainda está aqui, e estará sempre que eu precisar. Estará ali ao lado, sempre que eu me frustrar com alguma coisa.

Pista livre, o avião começava a ganhar velocidade. Uma declaração apressada, um abraço corrido. O ar parecia insuficiente agora, como era quando você respirava todo ele perto do meu rosto, quando inspirávamos e expirávamos coerente e sincronizadamente.

E enquanto muitas famílias pediam para que os minutos passassem mais rápido, adiantando as chegadas, eu torcia para que o tempo voltasse, apenas duas horas, enquanto eu te acordava, sem imaginar que aqueles eram os momentos mais felizes que eu poderia ter em semanas.

Quando as rodas deixaram o chão, algo lá dentro de mim pareceu perceber o que estava acontecendo. Não é justo, eu pensava. Não é certo, não era pra ser assim. Você não devia ir, precisava continuar aqui, me atentando a cada dois minutos.

E quando eu perdi de vista as luzes que piscavam, meus olhos chegaram ao limite, transbordando o que eu tinha guardado durante esses dias. Me virei e desci as escadas com aquela cara vermelha e emburrada que você conhece bem. Não pode ser assim, não está certo, eu continuava pensando.

Ao pegar uma das entradas na BR, sem querer, levei a mão ao lugar aonde estaria seu joelho, enquanto você cantava Slide Away, na minha mente. Era mais do que eu conseguia aguentar.
Estava tão acostumada com seu abraço, que de repente me senti só, desolada.

E mesmo que você só tivesse ido há dez minutos, a falta que fez poderia ser descrita como uma ausência de décadas.
Seu cheiro, o som da sua risada. Suas mãos inconvenientes, seus passos leves se preparando para dormir na minha sala. Sua preocupação ao olhar em volta na praça, seu cuidado em me fazer feliz. Seus fatos constatados, sua ironia sobre minha preguiça.

E mesmo que eu fosse uma mestre na arte das palavras, não saberia descrever o quão sublime era perder para você nos jogos de sala, ou rir de você me deixando ganhar no xadrez.
E assim como eu, ninguém mais saberia explicar o campo eletromagnético criado entre nós dois. Ninguém saberia dizer porque nosso riso contagiava quem estava ao redor.

Este apartamento dificilmente será o mesmo, agora que você não está mais aqui. Mas aguarda ansiosamente pelo dia que seu sorriso voltará a iluminar as noites frias em que se transformará minha rotina daqui para frente.



"Now the sky could be blue, could be grey,
without you I'm just miles away.
Oh, the sky could be blue, I don't mind,
without you it's a waste of time."