quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Aquilo que não coube nos Classificados.

Um cidadão caminhava na calçada, olhando para o chão mais a frente, sofrendo sua tempestade cerebral de costume. Eis que em determinado ponto, por algum acaso, ele para em frente a um poste, e olha para ele.
Curiosamente, havia uma folha pregada no poste, com algumas palavras escritas. E seu hábito vicioso venceu - o homem resolveu ler o que estava escrito.




PRECISA-SE DE UM AMIGO

A quem estiver lendo este anúncio, gostaria de oferecer uma proposta.
Precisa-se de um amigo, com urgência.
O cargo não exige experiência, nem qualificação. O candidato deve apresentar certas características, como paciência, perseverança, lealdade, sinceridade e compreensão. Não precisa saber trabalhar em equipe, desde que saiba trabalhar em dupla.
A carga horária é de 168 horas semanais, e o indivíduo poderá ter direito a feriados, férias, períodos de descanso durante o dia, alimentação na casa do empregador, e demais benefícios a discutir.
A função consiste, principalmente, em ouvir. 
Requer disponibilidade de tempo para conversar e passear no parque, ir ao cinema, ou simplesmente estar ao lado do empregador.
Aceita-se todos os tipos de pessoa - não exclui-se raça, idade, sexo, antecedentes pessoais/profissionais/criminais.
Em troca, o candidato ganhará gratidão eterna, presentes de natal, e um coração remendado.

Caso a proposta não seja do agrado, aceita-se qualquer tipo de negociação.
Se  interessado, entrar em contato com a máxima urgência. Não há entrevista ou processo seletivo, a contratação é imediata. 



O homem se lembrou que ainda tinha créditos no celular, e agradeceu ao acaso por tê-los reservado para alguma necessidade.




"Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive." - Vinicius de Moraes

domingo, 6 de novembro de 2011

I'm learning to Walk again.

As pessoas podem pensar que eu tenho um buraco negro no lugar do coração, ou que eu sou racional demais. Acontece muito.
Mas olha, é verdade. Só que tudo tem um motivo.


Na Integração Sensorial, existe uma classificação das crianças quanto ao seu limiar de sensibilidade. 
E eu me cansei de ser sensível demais. Me cansei de ver o mundo sorrindo por fora, e chorando por dentro. Com o tempo, eu mesma não conseguia mais sorrir por fora, de tanto ver esse tipo de coisa. Isso não ia ser bom, eu sabia, mesmo com - sei lá - 7 anos de idade.


Tudo me fazia chorar nessa época, eu me lembro. Uma criança abandonada na rua, um cachorro mancando, um idoso sentado solitário no banco da praça. Acho que a pergunta que minha mãe mais ouvia de mim era: "Mãe, por que tudo tem que ser assim, tão triste?"
Ela sempre me respondia que a vida era muito dura, que o mundo não poupava nem mesmo os pássaros, que tinham que abandonar seus ninhos para tentar a sorte na chuva. Que isso servia para ensinar as pessoas a serem Humanas.
Me perdoe, mãe, a senhora estava enganada.


Até hoje as coisas são tristes, talvez até mais que antes. Mas eu vejo cada vez menos Humanos na Terra.
Vejo pessoas, não vejo Seres Humanos. Pessoas que matam, pessoas que não dão seta nos carros e atropelam crianças, pessoas que bebem e ofendem os outros, pessoas que roubam e se acham certas, pessoas que mentem, pessoas injustas, pessoas egoístas, pessoas fracas que se acham fortes, pessoas que não conversam olhando nos olhos de outras pessoas (que se sentem aliviadas por isso).
E várias outras pessoas que fazem coisas piores que isso.




 Eu, uma vez, quis ser médica, pra salvar as vidas, fazer a dor das pessoas parar, pra ver se viravam Humanos, quando a dor passasse. Outra vez, quis ser professora, pra ensinar às pessoas a serem Humanos. Uma outra, quis ser juíza, para mostrar o quanto é errado ser uma pessoa, e que o certo é ser Humano.


Ah, como eu era sensível.
E todos sabem o que acontece com pessoas sensíveis. Elas se machucam, quebram fácil seus ossos. Se arranham e sangram com mais frequência. Gripam todo mês. 
Depois, elas crescem, e veem que a vida é dura, mas não ensina nada pra ninguém. E constroem uma muralha ao seu redor. E guardam seu coração em um banco, nas Ilhas Fiji. E desativam todos os 7 sentidos.




Mas por alguma razão, alguém descobriu minha conta nas Ilhas Fiji, e furou um buraco na muralha. Os sentidos foram despertados, todos os 7.
E eu voltei a ver o mundo por dentro.


Agora, eu me vejo na mesma situação de um paciente que sofreu AVE (coisa que as pessoas também não fazem, até que passem por isso).


I'm learning to Walk again. I'm learning to Talk again.


Você sabe o quanto isso é difícil? Tente imaginar. Agora eleve à nonagésima terceira potência.







"A million miles away
Your signal in the distance
To whom it may concern
I think I lost my way
Getting good at starting over
Every time that I return


Learning to walk again
I believe I've waited long enough
Where do I begin?
Learning to talk again
Can't you see I've waited long enough
Where do I begin?"

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

"Just see roses, and see roses in the rain..."

Faz um tempo que não passo por aqui. As coisas tem sido meio corridas nos últimos meses. E intensas também.


Intensas, a palavra certa.




É meio estranho quando você choca seu passado com o seu futuro - isso tudo no presente. Aquilo que passou, que deveria ser sua base, seu ponto de apoio, te mostra que o futuro não será um lugar mágico, por mais que você tente construí-lo assim. Porque tudo é parte de um plano-mestre, nada depende exclusivamente de você.


E é tão difícil liberar as aderências de cicatrizes antigas... Dói muito, leva tempo, despende de força, habilidade, paciência, e técnica - coisas que na maioria das vezes você não tem disponíveis naquele momento. Mesmo que inconscientemente você saiba que faz bem, sempre há aquela fase de proteção máxima, que seu corpo fecha as defesas, e não deixa que nada funcione.


E te faltam nutrientes, te falam neurotransmissores, te falta sono, e disposição física. Seu corpo não aguenta aquilo sozinho, e ele sabe disso, mas teima em não aceitar ajuda de ninguém, de nada que venha de fora. Ele quer, mas não aceita. Por que, ein corpo?


E você vê o edema, você sente a dor, e você sabe que um Ultrassom pulsado resolveria tudo aquilo. Sabe até os parâmetros certos. Mas não pode aplicar em si mesmo, porque seu braço não alcança a parte do corpo que dói.


E de repente, como se não quisesse nada, a vida sente remorso por fazer aquilo contigo, e resolve te ajudar.
Um sorriso, um obrigado. Um elogio, um olhar. Uma imagem, uma música. Uma pessoa, um incentivo. O antiinflamatório que veio na hora certa, para amenizar sua dor e te devolver as esperanças de que, sim, um futuro mágico é possível.


Sem faltas, sem exageros... na medida certa, na posologia ideal.
E como dizia Shakespeare, as pessoas que te dão a mão para te ajudar a se levantar, possivelmente serão aquelas que você achava que te empurrariam para baixo.


E assim, com pequenas peças coloridas do Lego da sua sobrinha, você vai construindo o caminho até seu castelo, que também será de Lego. Se não der certo, reposicione-as, sempre estará em tempo para consertar uma peça fora do lugar.
O caminho, e o castelo, podem ser como você quiser, no tamanho que você desejar. E como são de Lego, você pode refazê-los quando achar necessário. Só depende da sua vontade de construir.


E mesmo que você não se lembre de cada momento, de cada peça que colocou no lugar (ou que colocaram para você quando suas mãos estavam inchadas e doendo), você pode olhar para trás, e ver aquela imensidão de peças - algumas coloridas, outras cinzentas; algumas brilhantes e impecáveis, outras meio opacas e desgastadas.
E com essa paisagem em seus olhos, você pode pensar por dois ângulos: ou você se foca nas peças opacas, desgastadas e cinzentas (que podem até ser a maioria), ou você pode deixar as cores te chamarem atenção, até começar a embaralhar as vistas, de tanta informação visual.
Não importa que peças você escolhe ver, desde que a última peça que você coloque, seja aquela que vem com o sorriso do boneqinho.




E mesmo que apenas uma pequena parte do caminho, ou do castelo, seja colorida...


Bem, você pode se orgulhar desse pedaço colorido. Porque, se você parar para pensar, é ali que está sua verdadeira base para o restante da construção.






E com vocês, uma música que ilustraria bem tudo isso:









"As we saw oh this light I swear you, emerge blinking into
To tell me it's alright
As we soar walls, every siren is a symphony
And every tear's a waterfall."

domingo, 11 de setembro de 2011

E mesmo no melhor dos dias, na melhor das hipóteses, ainda haverá aquela frustração.
Ah, como seria diferente se tudo tivesse andado como eu queria....


Desista, Paola... Seu tempo já passou, alguém te superou.
Você nunca mais terá momentos assim, oportunidades assim. Seu caminho não tem paradas como aquelas, e não há como voltar.

Agora é seguir em frente, e aceitar que se frustrar faz parte da vida.

domingo, 28 de agosto de 2011

This is bigger than us. (I hope so)


Uma vez, eu disse a um amigo, que acreditava sim em um juízo final. Em minha teoria, todos responderiam sim por cada ato de suas vidas, mas o juri seria a consciência de cada um - caberia a você mesmo decidir se merecia ou não a paz eterna.

A questão, é que nem mesmo nessa justiça eu acredito mais. Nem na dos homens, nem na "de Deus", nem na justiça própria. 
Não tem explicação lógica para o que se vê acontecer aqui. 


Eu costumava pensar que é tudo 'parte de um plano mestre', ou que tudo acontece por uma causa maior - o que é diferente de acreditar em destino.




Mas nem esse pensamento me consola mais. Se for ou não tudo "bigger than us", já não importa mais.
 Eu não quero que seja, foda-se se é por uma causa maior. Já sofri mais que devia por isso. Chega, por favor. Não tem mais graça brincar assim.







"I don't need your tears, I don't want your love,
I just gotta get home...

And I feel like I'm breaking up, and I wanted to stay,
Headlights on the hillside, don't take me this way,
I don't want you to hold me, I don't want you to pray.

This is bigger than us."


Bigger than us - White Lies


segunda-feira, 22 de agosto de 2011

But that was all.

He put a note in my pocket,
said "be good to yourself"


and that was all.


Life being what it is,
We all dream of revenge.
Open your eyes for a second,
Just to roll them at me!


I stared straight into the sun,
Something to concentrate on...


And if you turn it on you'd find,
I've written you a thousand times...
You would do anything,
You'd give up everything for,
God knows why!


I just can't stay till your gone,
I won't wish you well,
I won't see you off,
I won't try to call if I see you in my mind...
I´ll say to you it's not your fault.


You said I'll see you in September,
But that's not long enough for me.


You put a note in my pocket,
So that it would take care of me...




But that was all.






Life being what it is - Kaki king



É engraçado como às vezes, uma música que inocentemente apareceu no modo aleatório do seu player, poder definir grande parte da sua vida.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

E como minha mãe diz...

"Mente vazia, moradia do diabo."




Conversando com o professor que faz as triagens da clínica escola:


- Gustavo, tem alguma criancinha? eu quero muito tratar alguma criança.
- Não, não tem. Mas tem um caso lá de cortar o coração, de tumor em cervical.
- É esse mesmo que eu quero, manda pra mim. Por favor.




É isso, eu quero sair desse mundo, quero me estressar, quero chegar ao meu limite, quero desafios.


Porque eu não quero alugar minha mente para hóspede tão indesejado.