sábado, 7 de setembro de 2024

"Who watches The Watchmen?"

Já faz um tempo que minha vida está uma loucura. Mudei de emprego (de novo). Agora. posso ir a consultas e exames. Tenho me esforçado para cumprir "pequenas" tarefas. Saí novamente da minha "zona de conforto" - se é que já estive em uma alguma vez na vida.

Mais uma vez, foi necessário abrir mão de coisas, lugares e pessoas que me faziam bem, e eu precisei me adaptar a uma outra realidade. Recomeçar.

Recomeçar é uma constante na minha história. Falhar, encerrar, voltar, parar - e depois recomeçar. Cair e levantar. Várias vezes. Muito rápido. Diversos recomeços ao mesmo tempo.

E está tudo bem. De verdade. Isso não me assusta.


Mas percebi algo: tantos recomeços exigem muito de mim. A consequência é que eu não consigo parar e entrar em contato comigo mesma. Daí, eu adoeço. O medo e as inseguranças voltam. E, por estar ocupada com o recomeço e longe de mim mesma, eu demoro perceber que minhas rachaduras estão se abrindo de novo.

E, então, eu começo a me sentir sozinha.


Desde muito pequena, a solidão me acompanha. Ainda que cercada, nunca deixei de estar sozinha. Mesmo nos momentos felizes, mesmo recebendo afeto e atenção. Tanto as dores quanto as vitórias - das maiores às mais insignificantes. Meus esforços, sentimentos, medos e sonhos. Minhas transformações, descobertas, traumas, aprendizados. Meus recomeços.


Tudo o que vivi, tudo o que senti. Tudo o que eu sou. Toda a minha existência se fundamenta em um fato:

Eu sou só.


Agora eu entendo a dor constante que sentia, que nunca passava. Entendo porque cometi a maioria dos meus erros, porque machuquei pessoas, porque adoeci tantas vezes, porque tentava tanto ao ponto de ultrapassar meus próprios limites. Era medo de seguir sendo só.

Agora, entendo todos os meus adjetivos. Introspecção, autonomia, independência, proatividade, dedicação, persistência, resiliência, escuta, empatia, racionalização, perfeccionismo, autoexigência. Eu nunca pude dividir, atribuir, perguntar, discutir. Eu não tive escolha, a não ser descobrir e fazer tudo sozinha.

Hoje entendi porque conceitos como coletividade, parceria, colaboração, lealdade, diálogo, companheirismo, partilha e incondicionalidade são tão importantes para mim, e porque tento tanto persegui-los. Afinal, eu não pude experimentá-los plenamente.

Eu não me orgulho de nada disso. Se pudesse, viveria de forma totalmente diferente. A solidão dói, incapacita, cega, enviesa, maltrata, mata. Sim, ela ensina - mas existem outras formas menos miseráveis de aprender. Ser só é sofrido, triste, pesado. E não há ninguém para ajudar a passar por isso. Ninguém vai ensinar a lidar com as consequências de estar só. Não há bússola, e ainda que houvesse, não há alguém que mostre como usar.

Não me orgulho, mas não me envergonho. Tampouco me vitimizo. Até porque, nada disso veio por escolha consciente minha ou de quem quer que seja. Simplesmente aconteceu, como muitas coisas na vida.


Evidentemente, eu não gosto de ser solitária. Me incomoda, me faz reviver experiências que eu gostaria de esquecer. Me pego, às vezes, agindo com imaturidade, ansiosa ou levianamente, na tentativa de fugir da solidão.

Mas em respeito a mim mesma, está na hora de admitir que a solidão é parte de mim. Um traço da minha personalidade, um pedaço da minha história. E está aqui há tanto tempo, tão profundamente, que já cristalizou. Não é possível remover ou mudar.

Me cabe, agora, apenas aceitar, entender, e lidar com essa parte de mim. E, quem sabe, aproveitar e aprender a tratar com carinho a pessoa solitária que sou.


Ah, e apenas para constar: me dei conta disso tudo - é claro - sozinha.

quarta-feira, 1 de março de 2023

I Fly among the stars.

 Fazia tempo que não escrevia.


Passei muitos anos na busca de algo que, no fundo, eu não sabia se iria encontrar.

Escrever era uma forma de me localizar no caminho. Não como uma bússola, que me diria para onde ir, mas como um ponto de referência, que me dizia onde eu estava. Mas ao mesmo tempo, era doloroso e difícil. 

Para escrever, eu precisava entrar em contato comigo. Descer desse carrossel que é minha mente, e me olhar - primeiro, de perto; depois, à distância.

Observar a mim mesma é uma tarefa extremamente difícil pra mim. Eu sempre tive uma visão completamente deturpada de quem eu sou. Muito crítica, depreciativa, exigente. 

O que vejo no espelho é um monstro amorfo, pesado, repugnante. Essa é a imagem que encontro quando olho minhas formas. Mas a pior parte são os olhos. O que vejo em meus olhos é a transliteração, em personalidade, do que vejo concretamente.

Eu vejo angústia, fracasso, súplica, cansaço. Vejo uma alma que não sabe onde está, para onde vai, ou o que está fazendo. Uma alma perdida, fora de controle, fora do eixo. Sem luz, sem brilho. Sem propósito. Sem vontade.

Desvio o olhar do espelho, e olho ao redor.

 (Quase) tudo o que eu havia sonhado um dia está aqui. Até mais do que imaginava conquistar.

É incoerente. Não consigo conectar o que vejo ao redor e o que vejo no espelho. Esse monstro sem vida não poderia ter chegado tão longe. Esse monstro não merece tanto. Não faz sentido.

Eu sei, em meu consciente, que a lógica não falha. Causa e consequência. Se eu tenho tudo isso, foi a colheita de um plantio árduo e persistente. 

Eu sei. Mas não sinto.

O que eu semeei, afinal?

Ah sim, eu semeei. Muito. Mas nas hortas alheias.
Fui, para os outros, o meu melhor. Fui aquilo que gostaria de ser comigo mesma.

Meu único arrependimento foi ter deixado minha horta vazia.

 

Acho que é isso que busco afinal. Construir meu próprio pomar.

Talvez ali, sentindo uma brisa fresca com cheiro de terra molhada, na sombra de um tamarindeiro, à beira de um lago, eu consiga ver minha imagem refletida, e enxergar com outros olhos.

Enxergar outros olhos.


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

E então, a mão que segurava o lápis parou a alguns centímetros do papel. Ali estava, esperando que o cérebro desse o comando. Mas, naquele momento, o cérebro não conseguia se decidir sobre o que fazer.

...

“Você consegue visualizar agora tudo como uma brincadeira de criança?”
“Para mim, nunca foi uma brincadeira. E nunca será.”

Tudo ia muito bem. Ia ganhar alta da terapia, seguia feliz com a vida , que ia finalmente seguindo nos trilhos. Mas então, um dia dirigindo pela cidade, veio aquele cheiro.

Instantaneamente, chega o asco. O medo. A culpa. A desesperança. Aquela sensação que não tem nome, algo parecido com o que você sente quando está em uma montanha russa, e parte do seu corpo fica lá em cima, enquanto outra parte desce repentinamente. Mas sem a adrenalina, sem a diversão.

“Mas é normal que isso aconteça nessa idade. A diferença é que você não queria.”

E de repente, eu me sentia a pior pessoa do mundo. Eu era a pior pessoa do mundo.

“Você era uma criança, e o medo paralisa até os adultos, imagine o que acontece com uma criança.”


Racionalmente, nada faz sentido. Eu estou segura no meu carro, acabei de ser elogiada no trabalho. Estou me preparando para ser voluntária em obras sociais. Ajudei minha mãe com o dever de Inglês. Por que eu sou a pior pessoa do mundo? Por que eu tenho nojo de mim mesma?

“Olhe para essa cena, como a criança que você foi. Fique aí por um momento, e veja o que sente.”

Eu me sinto podre por dentro.

“Como você se sente agora, vendo pelos olhos da adulta que você é hoje?”

Eu sinto raiva. Eu me sinto indignada. Eu sinto remorso. Eu sinto nojo. Eu sinto culpa.

“Você sempre foi uma criança responsável, e de alguma forma, você foi responsabilizada por isso.”

Por isso, e por tudo. É tudo culpa minha. Sempre eu, a pessoa errada no lugar errado fazendo coisas erradas. Mesmo sendo uma criança.


“Como você se sente agora?”

“Eu não sei. Aliviada por finalmente contar para alguém, eu acho.”

“Olha só, você ainda vai levar um tempo para processar isso. Você nunca vai esquecer o que houve, mas o importante é não sentir essas coisas por você mesma.”


...


12 horas depois, e eu sinto como se alguém tivesse aberto meu crânio e revirado todo o conteúdo, procurando algo escondido.

Eu sinto muitas coisas. Eu não sinto nada.

É como se tivesse um corpo na sala ao lado do meu quarto. Está ali. Morto. Mas está.

Eu tento todas as estratégias que normalmente uso para me reorganizar. A mais agressiva é o lápis no papel. Mas meu cérebro foi revirado, não consegue dar o comando.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Crescer dói.

É uma dor agonizante, muitas vezes insuportável. Uma mistura de sentimentos que, pela lógica normal, não poderiam estar juntos. Sentimentos que, por vezes, você nem sabia da existência. Sentimentos que não tem nome, que não tem forma.

É tudo tão complexo, multifacetado. Tudo muito sólido, mas dependendo da forma de olhar, tudo muito incoerente. Nada faz sentido, mas é extremamente real.

Quando a gente cresce, olha para trás e só vê um passado que ficou no passado. Uma época que te construiu, mas ficou ali dentro de um baú, que por vezes você até se esquece de abrir.
A gente olha pro futuro, e vê um túnel escuro. Você pode até não ver a luz, mas sabe que ela está lá em algum lugar. Você passa a aceitar que não faz ideia de absolutamente nada, e para de se incomodar com isso. Você simplesmente se lança na vida, sem saber o que vai acontecer depois. E isso passa a ser normal, cotidiano.

É difícil abrir mão das certezas que tínhamos antes de crescer. Eu, honestamente, preferia a segurança. Mas somos forçados a encarar o desconhecido, a não se agarrar aos planos. Somos forçados (para a nossa felicidade) a aceitar o que a vida decide nos dar.

"Mas Paola, você está dizendo que somos escravos das decisões do destino?"
Não. Somos escravos das nossas decisões, dos nossos valores. O ponto é: não nos cabe escolher o que virá. Mas como reagir será uma decisão nossa.

"Mas como reagir se não sabemos o que virá?"
Bem, acho que esse é o charme da vida. Surpreender-se.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

I'll be back to love you again.

E você foi uma dessas coisas inesperadas que acontecem na vida. Daquelas que a gente não tem esperança que dê certo. "Não vai passar de uma saída, no máximo duas".
Foram duas saídas. E você foi embora. Foi para longe.
Eu sofri, sabia? Ah, você não imagina o quanto. Doeu ver as fotos da sua partida, da sua nova vida. Tirei você do meu feed, excluí você do meu campo de visão na esperança de esquecer, de me conformar. Os olhos não viam, mas o coração sentia. Sentia sua falta, e, o pior: não sentia reciprocidade.

Fiquei aqui, na ciência de que estava sofrendo sozinha. Foi um ano difícil, eu procurava você em outras pessoas, mas só me frustrava. Só consegui a certeza de que eu jamais te encontraria de novo - nos outros, ou em você mesmo. E que eu tinha te perdido, sem nunca te ter de fato.

Doeu tanto, que eu acabei descontando em você. Eu ria sempre que você me pedia pra te visitar. Eu debochava quando você dizia algo bonito. Eu nunca te levei a sério, porque tinha medo de que você estivesse brincando.
Eu tinha medo do que eu sentia. E medo das consequências. Você era demais pra mim. Era mais do que eu achava que merecia. E você ia embora. Minha cabeça já era confusa sem você, e tudo isso era pesado demais pra alguém instável. Por favor, tente entender... Eu não queria afastar você da minha vida, mas não sabia o que fazer. Estava cansada de me frustrar. Estava carente, sozinha, e amedrontada.

Doeu, e acredite, ainda dói.
Você voltou, depois de um ano. eu mudei tanto em um ano... Mas perto de você, eu parecia a mesma menina assustada. Eu era a mesma menina assustada. Nada fazia sentido pra mim. Se eu era tão sem importância como eu achava, por que você estava aqui de novo, me abraçando? E se eu era tão importante, por que você sempre sumia por dias, semanas?

Quando você veio, eu não estava muito bem. Por coincidência (ou não), muitas coisas estavam erradas na minha vida. E você trouxe de volta toda a confusão, toda a incerteza que eu senti quando te conheci. Você trouxe de volta, também, muitas coisas que sequer sabia da existência - meus fantasmas. Sem querer, você desenterrou toneladas de esqueletos antigos.
Foi ruim? Não, foi péssimo. Triplicou a dor que eu senti um ano antes. Mas foi bom, porque eu finalmente tomei uma atitude que adiei por tanto tempo. Eu, finalmente, busquei ajuda.
Você não foi a causa, mas foi o gatilho. A gota d'água que transbordou o copo.

E depois de tudo, você foi embora de novo. E eu decidi consertar o estrago que você deixou.

Hoje, eu sou outra pessoa. Se você voltasse, arrisco dizer que não encontraria aquela menina amedrontada mais. Mas você ainda me perturba mais do que eu gostaria de admitir. Eu simplesmente não sei como agir com relação a você. Não sei sequer o que pensar. Você é uma imensa interrogação, um mistério. E se você pudesse, adoraria que me ajudasse a te desvendar. Ao menos, a parte de você que me cabe - mesmo que não me caiba parte nenhuma, eu preciso descobrir.


O correto seria abstrair. Esquecer que você existe. Mas desde o primeiro segundo, você é importante demais pra sumir assim. Eu não posso, e não quero apagar você. E o engraçado de tudo, é que eu estou muito bem resolvida quanto a isso.

Só me fala uma coisa: como você vai me guardar na sua memória? Como um caso de duas saídas? Ou como uma porta aberta?
Alias... Você vai me guardar na sua memória?


E, como há muito não acontecia, hoje eu acordei bem cedo, sem precisar de despertador. O sol ainda nascia, o céu estava laranja e rosa.
E ali, no meio da confusão que estavam meu quarto e minha mente, eu decidi:

Não vou parar.


terça-feira, 16 de junho de 2015

Me desculpa?

"Sério? Isso não parece nada com você..."


Ah, sabe, eu já perdi a conta de quantas vezes escutei isso na vida. Tantas as situações, que às vezes, parece que eu não sou a mesma aqui dentro e lá fora - duas Paolas totalmente opostas.
Isso tem um lado bom, é claro. Saber se adaptar. Mas eu não consigo sufocar a impressão de que eu estou sendo falsa e desonesta com todo mundo. Não consigo deixar de ver, repetidas vezes na minha cabeça, o olhar irônico de quem realmente me conhece quando ouve sobre a Paola que eu "não sou".

É clichê, mas não deixa de ser verdade: eu nunca pude ser quem eu realmente era. Sempre precisando me adaptar para sobreviver - ou para não quebrar por dentro. Juro pra você, não sei como ainda não virei um vegetal. Tipo aquelas pessoas que tem problemas psiquiátricos. Não sei se já viu alguma grave a esse ponto. Eu já, e é muito agoniante.

Eu já quis desistir, sabe. De tudo. De lutar, de tentar, de viver. Mas até pra isso fui insosa e indecisa, e só deixei as coisas acontecerem, sem tomar um partido. E aqui estou, tendo crises de choro no meio da rua e torcendo para que o motorista do carro ao lado não veja. Incapaz de me controlar quando estou aqui dentro, sozinha.

Mas lá fora...

Lá fora eu não pareço nada comigo. Lá fora eu sou forte, educada, organizada, compreensiva, brilhante. Lá fora eu sou empática, engraçada, bem sucedida. Feliz.
Lá fora eu sou exatamente quem eu precisava ter ao meu lado aqui dentro.
Com o tempo, eu acabei desenvolvendo uma espécie de filtro - que antes era complicado gerenciar. Hoje, é inconsciente, automático.
Um filtro tão forte, que frequentemente as pessoas diziam que morreriam antes que eu me tornasse aquilo que eu era (e elas desconheciam). Muita gente colocaria a mão no fogo por mim. Coitados.

Eu sei que eu magoei você. E isso me faz muito mal, acredite. Sei que fui injusta e agressiva, justamente quando você precisou de mim.
Mas sabe aquela pessoa controlada, equilibrada?
Ela não existe, afinal.

Ela precisa te explicar que, quando está sorrindo e dizendo que tudo vai acabar bem, tem algo parecido com o Holocausto acontecendo dentro daquela cabeça. Apesar de te dar conselhos certeiros, ela está desesperada, confusa, e sem uma gota de esperança. E se a coisa chegou a esse ponto, é porque tudo cresceu tanto lá dentro, que conseguiu até mesmo passar pelo filtro mais potente que eu já vi. É porque está grave.

Eu realmente fico mal quando faço algo assim. Não gosto de tratar as pessoas dessa forma. Eu sei como é passar por isso, e não desejo pra ninguém. Honestamente, peço desculpas. Desculpas é pouco. Peço perdão.

Se eu fui crítica ou dura contigo por 40 minutos, imagine como eu sou comigo o tempo todo. Se eu fui grossa, impertinente, insensível, exigente... Infelizmente, esse é meu basal. Eu provavelmente não consegui mascarar pra facilitar sua vida. O erro foi meu.
Se eu representei uma carga pesada pra você por um dia, uma semana... Tente me entender. Apiede-se. Eu com certeza só deixei passar, no máximo, 10% do que eu carrego todo dia. Fora os outros fardos que esse hábito desonesto de fingir ser compreensiva me trouxeram.

Imagine o que é acordar e dormir com a Paola real.

E é essa Paola que te diz agora: se eu fiz algo que te magoou, não foi pra me sentir superior. Ou por qualquer tipo de prazer doentio. Não...
Se eu te agredir, é porque me sinto ameaçada. Não por você, por mim.


Se eu te magoar, por favor, não se ofenda. É só um pedido de socorro.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Eu vou dizer aquelas coisas, mas na hora eu esqueço...

E então, eu abri os olhos, de sobressalto.

Não sei o que me assusta mais - se é o fato ter ter sonhado contigo, ou o desgosto por saber que fora apenas um sonho. Ou talvez, o espanto seja por 5 minutos perto de você terem sido o suficiente para tal reação.

No sonho, éramos próximos, íntimos, quase um só. Não no sentido romântico da coisa, pra infelicidade do meu ID. Mais que amigos, quase uma mesma alma dividida. Ríamos, contávamos segredos, compartilhávamos metas.

Fora da minha mente inconsciente, é como se eu estivesse conhecendo uma versão mais velha de mim. As mesmas mãos ansiosas, o medo de olhar nos olhos, o perfeccionismo, o bom humor. Eu me identifiquei. Aliás, eu me vi em você.
Eu vi em você o sucesso que eu ainda não obtive. Vi a chance de aprender, de crescer. A oportunidade de me compreender e me aceitar de uma forma mais fácil - porque sem dúvida é mais simples gostar de você que de mim mesma. Eu poderia te fazer feliz simplesmente sendo feliz, e vice versa.

Quando você sorriu, um mundo de possibilidades se abriu diante dos meus olhos.

Porém, quando você foi embora sem se despedir, o Sol parecia ter sumido do meu horizonte de esperanças. Cada uma de suas atitudes (que podiam muito bem ser causadas pelos mesmos motivos das minhas) colocava em xeque a minha segurança, minha certeza.

Se você é realmente como eu, vai entender por que eu não segurei sua mão, vai saber que não me considero mulher suficiente para você. Vai decifrar meu nervosismo, minhas hesitantes mensagens de bom dia, minha reluta em demonstrar querer sua companhia.
Se você soubesse o que se passa aqui dentro, agiria exatamente como você gostaria que eu fizesse. Eu juro que estou tentando, dentro das minhas limitações, que você sabe bem quais são.
E, partindo do pressuposto que você também se sinta assim, eu lhe (me) pergunto:



Por que não eu?








Música: "Por que não eu"
Autor: Leoni (Participação especial de Herbert Viana)



sábado, 27 de dezembro de 2014

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Quem com o ferro não fere, será ferido também...

"Você não me conhece
Mas me ama pra sempre porque te convém
Desaparece
Se pinta outro atalho
Não sou mais ninguém

Me deprime, me derruba
E depois reza por mim
E o meu crime, apagar as velas antes do fim

Você começa esse jogo chato e eu acabo
Manda seu Boeing na torre, não desabo
Desfila sua vida cor-de-rosa e eu caso
com o diabo...

Na sua ironia burra, dou cabo
Meu bem, nem tô passando pires, nem babo
Enfia sua vida cor de rosa no rabo!
Pro diabo ..."



Música: Você não me conhece - Jay Vaquer

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

'Cause harmless medications abound, and you're not sick...

Existe algo de intrigante na minha vida, algo peculiar.
É comum ver pessoas que caem facilmente na zona de conforto, que se entregam a uma rotina calma e previsível. Também é frequente encontrar aqueles que são desafiados, mas permanecem tranquilos em seu caminho. Uma reta com curvas suaves.

Mas não comigo.
A minha vida... Ah, ela é uma montanha russa. E, (in)convenientemente, me fizeram entrar vendada no carrinho. "Hoje aqui, amanhã não se sabe..."
Exatamente.

Creio que o Universo (ou Deus, se assim preferir) provenha isso propositalmente, para desafiar aqueles que precisam manter o controle de tudo. Ele faz com que nos apaixonemos pelo caos, nos faz admirar o desconhecido. Bloqueia a via principal, remove todos os acessos, e nos obriga a traçar um caminho próprio. Sem mapas, sem guias, sem socorro. Só você, seus instintos, e sua consciência.
Não há como prever, como controlar. E eu, com a minha insegurança (que eu imaginei já ter abandonado), busco inutilmente tentar compreender o que não há lógica. E permaneço me machucando na tentativa.

Será que algum dia eu vou aprender?

terça-feira, 19 de agosto de 2014

‘Cause you and I, we were born to die.

E, mais uma vez, a vida mostra que pode ser cruel quando quer.
Dentre as coisas mais desagradáveis que existem, está o arrependimento. Por ter feito algo errado, ou por não ter feito nada. Mas, ao menos para mim, nada é mais frustrante que não ter a chance de tentar.

É como ver uma imagem vívida dissipando-se na neblina, e indo embora com o vento. Uma promessa não cumprida. Desejar, conseguir, e ter aquilo roubado de si antes mesmo que chegue às suas mãos. Um "aborto espontâneo".

Isso tem me acontecido com certa frequência, infelizmente.
Dois grandes sonhos, nutridos desde a infância, alimentados com carinho e esperança. Esperança em dias mais coloridos, mais brilhantes. Meus dias, por um longo tempo, se basearam em esforço e preces, buscando, tentando, falhando, esperando, torcendo. E, assim de repente, a oportunidade surge, e é a minha hora de fazer por onde...


E fim. A chance é tomada de mim antes que eu possa fazer algo - exatamente no momento que eu a percebo. Ou até antes. E eu me sinto perdida, sem chão.
A vida ata meus braços, mas se esquece que minha mente ainda corre, ainda anseia. E com uma forma artística de torturar, presencia meu silêncio consternado enquanto assisto tudo passando, sem poder fazer nada. E se ri de mim, do meu desespero.


Você era um dos meus sonhos. Não o mais desejado, é verdade... Mas não menos importante.
Eu já sabia que você era uma porta fechada, mas estaria disposta a escalar até a janela.
Então, com a mesma intensidade que você apareceu, você se foi.
E eu fiquei aqui, encarando o ônibus vazio que eu perdi, perplexa; obrigada a esperar pelo próximo, e assim, poder ir para casa.

domingo, 27 de julho de 2014

Depois a gente vê (por mmerteuil)

"Pediram-lhe palavras. Há algum tempo já, ela só tem usado as roubadas, de poemas e canções. Debruça-se sobre as palavras alheias, que a traduzem tão bem que ela se comove de se ver ali, desnuda e descrita. Sempre achou que empunhava as palavras tão magistralmente e hoje elas lhe faltam. Ou sobram. Nunca na medida. Como o que ela sente, também tão desmedido. Tão desafiador, desestruturador de tudo o que ela sempre pensou ser, que viveu até aqui, que acreditou.
 Ele faz doerem nela dores que ela nem sabia que existiam. E a faz gozar prazeres de que  tampouco desconfiava. Perfurantes. Ele confronta suas teorias sobre amor e liberdade, testa seus limites, grava no seu corpo e na sua memória as sensações mais extasiantes, enquanto crava nela o ferrão da dúvida, os dentes do ciúme, as unhas da inquietação. Fugidio, esquivo, tantalizante. Ela? Experimenta, permite-se, tenta, testa. Alonga. Paga pra ver.
 Já partiu, já voltou, chora muito, ri outro tanto, pensa demais. Tudo demais. Cores, dores, luzes, faltas, explosões, desejos. Esperas. Essa coisa de pensar sobre o tempo. Muito cedo, tarde demais, intervalos, ocasiões, agora, nunca, sempre, velocidade, duração, logo, quando, tempos paralelos, tempos comprimidos, tempo. E espaços. Frestas. Onde. Como.
 …..
Os olhos escuros que ficam quase cor de âmbar no amor.  Ela poderia ir morar naqueles olhos para sempre. Reduzida à carne sob as unhas, escondida nos sulcos da pele, no meio dos pelos, entranhada no suor dele, no sêmen, no gosto doce e úmido da boca.
 …..
Uma coisa é saber da falta e da angústia, mas viver todo o tempo diante da face crua dessa falta, na ausência de ar e no espanto desse buraco que nos constitui, também pode ser sintoma. Por isso, a gente cria uns véus, lança umas rendas diáfanas diante da realidade, usa uns filtros no enquadramento, para adoçar arestas, permitir caminhos.
 Entretanto. O caminho que ela percorre é escuro, instável. A cada passo, a incerteza. Cair no vazio ou criar, no próprio ato do passo, outro pedaço da estrada? Estrada que ela nem sabe se existe, ou onde vai dar. Claro que não existe. Nenhuma estrada existe a priori. Mas a gente às vezes inventa, projeta, imagina – lança os tais véus – e isso é muito reconfortante. Fazer planos, sonhar, construir futuros. Ainda que só de brincadeira, ainda que sabendo da ilusão. Adora um amor inventado.
Por um tempo viveu um amor assim, que prometia ser absoluto, completo. Foi tão bom acreditar. E tão sufocante manter. Hoje, experimenta a exacerbação da transitoriedade. De um lado, a ilusão de completude, da entrega que cobra, impiedosa, o preço da liberdade; de outro, o desconforto da impermanência, permanentemente desfraldada diante de si como um desamparo. No meio, ela. Um tanto atordoada. Que já não sabe o que deseja. Ou sabe só o que deseja, sem lógica ou juízo. O corpo dele no seu, as mãos, a boca, as pernas, os olhos. Os olhos dele nos seus, o fogo, o riso, a dor, a promessa muda e incompleta. Só hoje, só mais um dia, só até o próximo encontro. Depois a gente vê o que faz."



Por mmerteuil, em Biscate Social Club.
(Acesso em http://biscatesocialclub.com.br/2014/07/depois-gente-ve/)

sábado, 26 de julho de 2014

Lose is more than hesitate...

(...)
E então, percebi que eu, de fato, gosto de me machucar.
Sim, há algo aqui dentro que precisa punir-se, que clama por dores, um impulso que tende eternamente à autoflagelação. Existe uma parte minha que não se contenta com a anestesia, que precisa sentir.

E você percebeu isso, não foi?
Seus olhos não conseguiram esconder a surpresa ao notar o que eu realmente sou por dentro. Você me desvendou, removeu a capa de boa moça. Foi além do sorriso acalentador, do olhar compreensivo. Percebeu o que esconde a voz macia, a personalidade equilibrada.
Mas você não sabia o que estava vendo, o que tinha em mãos.
Se você quisesse, poderia ter visto, em minutos, a desordem que eu sou. Teria compreendido porquê eu sempre aviso que sou "difícil de lidar". Teria se surpreendido mais algumas dezenas de vezes.

Acontece que é exatamente este o meu ponto fraco. Me inquieta quando alguém tenta desatar o nó que eu sou. Como se só eu tivesse esse direito, mas admirasse aquele que o quisesse tomar de mim.
Existe uma blindagem forte ao redor das minhas confusões mentais. Mas aquele que é corajoso ou sortudo (ou ambos) o suficiente para vencê-la, me tem nas mãos.
Geralmente, eu sento e observo o que as pessoas fazem para conseguir isso. Aplaudo as manobras, avalio as investidas. Às vezes, facilito; na maior parte do tempo, dificulto.

Mas aí veio você. Chegou simplesmente para passar o tempo. Apareceu como mera distração - e sei que a recíproca era verdadeira. Logo você, cuja porta já estava fechada antes mesmo que eu pudesse fazer alguma coisa.
Mas foi justamente sua porta fechada, seu despreendimento, que te fez materializar-se do lado de dentro da minha blindagem. Sem esforços. Sem tentativas. Você simplesmente estava lá. Eu não vi o que aconteceu, embora saiba que você não o fez de propósito. Ou fez?

Estou confusa, já não sei o que pensar. Não estou apaixonada, envolvida. Estou impressionada.
É uma sensação nova para mim.
Você foi uma pessoa nova para mim, totalmente diferente de tudo o que eu já vivi.
Na verdade, eu ainda não sei o que é você. E isso só aumenta minha inquietação. Você está ali, comigo em suas mãos, e não sabe. Enquanto eu não faço ideia do que você é.
Você tem alguma noção do que isso significa para uma menina mimada, controladora e reclusa dentro de si? Você sabe o que é querer (e sempre ter) tudo, estar acostumado a controlar aquilo que está ao redor, e de repente, se ver nas mãos de alguém que não tinha a menor pretensão que isso acontecesse?
Sabe como eu me sinto?

Excitada. Curiosa. Intrigada.
Eu quero mais.

terça-feira, 24 de junho de 2014

"And so my heart is payin' now for things I didn't do..."

Olho o sol claro lá fora, e não consigo compreender por que faz tanto frio aqui dentro. Todas as janelas do apartamento estão fechadas, evitando que o vento entre. Mas ele insiste, e traz arrepios à minha pele.
Ou serão os arrepios causados por outra coisa?

Por incrível que pareça, a temperatura do meu quarto encaixa-se perfeitamente como uma metáfora da minha vida. Céu azul, dia bonito, a cidade está cheia de vida lá fora. por fora, eu sou toda sorriso e movimento, como a viva fachada do meu prédio.
Lá fora. Por fora.

Aqui dentro, na minha mente, tudo é frio e cinza. Com um pouco de laranja das minhas fronhas e toalhas, mas sempre frio. Sempre vazio. Eu sempre estremeço quando entro debaixo dos meus cobertores alaranjados e floridos. Faz frio, e o espaço ao meu lado está vago.
Me falta companhia para aquecer as noites? Sim. Porém não.
O lugar vazio que aqui está não pertence a ninguém - foi uma lacuna que eu mesma deixei de preencher, esperando que outros ares e novos perfumes enriquecessem meus dias. Assim como eu sempre tento incrementar vácuos alheios. Sempre fui uma porta aberta, uma janela sem cortinas, sem travas, esperando que um fluxo de coisas passasse por mim.

Mas agora, por mais que a lógica não consiga explicar, eu fechei a porta, embora não tenha trancado à chave. Bloqueio o vento, mas tudo o que consigo é me isolar dentro de um apartamento frio, invejando o calor, a cor e a luz que estão lá fora.

domingo, 22 de junho de 2014

Am I living it right?

E lá estava eu novamente, em mais um capítulo dessa nova aventura que me propus. Desta vez, não havia ansiedade, frio na barriga, mãos geladas, preocupações gerais. Eu já estava me habituando. Já conseguia olhar em seus olhos por algum tempo, sem corar. Já conseguia permanecer em teus braços sem me sentir uma tola garotinha. Sem me preocupar em parecer uma tola garotinha.
Ali estávamos nós, somente respirando juntos. Ali estavam as batidas do seu coração, suas mãos suaves nas minhas costas.

Mas você não estava ali.

Apesar de declaradamente desimpedido, ali estava a foto de uma bela mulher na proteção de tela do teu celular. Você me mostrou sem querer. Não sei quem é, e honestamente, não me interessa. O que importa, é que mais uma vez, eu me deparei com uma porta fechada.
Nem todos os meus suspiros e risos foram suficientes para destrancá-la. Você estava cercado por arame farpado: se mostrava para mim, mas me mantinha longe. Do meu lado da cerca. Impossibilitada de entrar na sua vida, no seu mundo.
E mais uma vez, percebi que todas as promessas que me fez eram vazias, unicamente com a intenção de abrir caminho entre todas as minhas confusões e incertezas. Aliás, como todos os que te antecederam, e exatamente da mesma forma dos que ainda virão.

Isso me leva a questionar: quem eu sou? O QUE eu sou?
Um mistério a se desvendar, talvez. Uma curiosidade. Um sorriso intrigante. Uma voz convidativa. Um rosto que pede brincadeiras.
Apenas isso.

E, mais uma vez, eu olho para você, sabendo que você vai partir em breve - isso é, se já não partiu antes mesmo de chegar. Você tenta investigar meu silêncio, minha expressão saudosista. "O que foi? Por que você está calada?"
"Estou só desligada", eu respondo. Pura mentira, meu silêncio é um breve luto por mais uma chance que se foi, outro "não" que a Vida me dá. Um "não" precedido por um esperançoso "talvez".

E assim eu continuo a minha aventura, vendo sucessivas portas se fechando à minha saída. Não há esforço da minha parte capaz de evitar. Não há explicações plausíveis, não há previsão de mudança.
Sinto que a Vida esteja tentando me ensinar algo, e que eu estou com sérias dificuldades para absorver. Sei que estou perto.
Assim, continuo investindo em todos os "talvez", na esperança de que um destes se torne um "sim".

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Don't let 'em in your head...

"Mãe, por que as pessoas prometem as coisas e depois não fazem?"

Essa foi a pergunta que eu fiz, no auge da revolta com meu pai, aos 7 anos. Eu estava cansada (sim, aos 7 anos) de lidar com a incoerência do ser humano.

Em algum lugar - provavelmente onde minha inocência se perdeu - as pessoas simplesmente pararam de agir como pessoas. Ninguém me chamava mais para brincar só por diversão. Eu só ganhava balas toffe em véspera de prova. Só sorriam para mim quando tinha trabalho em grupo. Só me chamavam para trocar figurinhas que faltavam no álbum.
Hoje, alguns anos mais velha, continua o mesmo, porém ninguém tem a hombridade de assumir, diferente de quando eu era criança.

Tudo bem, é da natureza humana tentar fazer o necessário para sobreviver. Mas será que é só para isso que eu sirvo? Para fazer favores?
Será que é demais pedir um contato, mínimo que seja, pura e simplesmente pelo que eu sou? Um afeto incondicional, uma conexão pura?

Tantas promessas quebradas... Mentiras... Ilusões... Jogos emocionais...
Estou cansada e descrente, só isso. Quero poder voltar a brincar de salva-bandeira sem me preocupar com o pedido chantagista que virá depois.





domingo, 18 de maio de 2014

Most of what you see, my dear is worth letting go...


"Everyone is seems has somewhere to go
And the faster the world spins, the shorter the lights will glow
And I'm swimming in the night, chasing down the moon
The deeper in the water, the more I long for you

Most of what you see, my dear, is purely for show
Because not everything that goes around
Comes back around, you know?
Holding on too long is just a fear of letting go
Because not everything that goes around
Comes back around, you know?

One thing that is clear: it's all downhill from here...

The loveline in your hand, cleverly disguised
All the promises of stone, crumble in the light...

Most of what you see, my dear is worth letting go...
Because not everything that goes around
Comes back around, you know?
Holding on too long is just a fear of what to show
Because not everything that goes around
Comes back around, you know?

One thing is clear: it's all downhill from here..."




Acho que dispensa explicações.



Música: Like Clockwork, por Queens of the Stone Age
Album: ... Like Clockwork (2013)

Does anyone ever get this right?

Hoje, eu olho ao redor, e tudo o que eu vejo é dor condensada.

Está nos olhos das pessoas, no ar que eu respiro, nas vozes vazias, nas palavras não ditas.

Não neguem: tudo é dor. Os carros conduzidos por pessoas egoístas, o stress de uma fila de banco, o olhar vago dos passageiros nos ônibus. As fotos apelativas nas redes sociais, o comportamento estereotipado e, muitas vezes, sem nexo algum.
Tudo é dor. Aquela dor antiga, crônica. A dor da falta ou do excesso de algo. Da perda - ou muitas vezes, da presença de alguém. A dor que guardamos lá no fundo, escondendo até de nós mesmos. Ou até a dor que queremos mostrar, mas todos fecham os olhos, desligam os ouvidos, e trancam os corações para não verem. A dor que negamos existir, que volta e se manifesta de outras formas - socialmente aceitáveis.

Cada um tem a sua dor. Não importa o que causou ou o que a alimenta. O que importa é que, na ânsia de vivermos, nos forçamos a ser felizes a qualquer preço. Bens materiais, uma mesa cheia de amigos, casamentos e filhos, ibobe em mídias sociais, álcool, música - tudo isso são caminhos que as pessoas percorrem atrás da tão sonhada felicidade. Não dá para condená-los. Nem mesmo aqueles que buscam felicidade na dor alheia. A dor nos faz chegar ao desespero, e é aí que tentamos de tudo o que sabemos - e até o que desconhecemos - para nos livrar dela.

E, esta ingrata, por mais que realizemos nossos objetivos, permanece ali. Às vezes latente, em stand by. E aí pensamos: "finalmente, sou feliz". Mas alguns poucos ainda sabem que ela está só esperando, sentem que algo está errado...
Eis que, quando estamos no topo da montanha-russa, no auge, ela resolve reaparecer, lembrando-nos que somos falhos e incompletos. Lembrando-nos de nossos fantasmas, nossos medos.

Não há como negar. Nem o mais feliz dos seres se livrou do pontinho escuro que reside ali no âmago da alma. E, infelizmente, jamais se livrará.